A
história do mundo em pequenos pedaços de papel
Clube retoma
as atividades e pretende reunir novos e antigos colecionadores
Luiz
Fernando Vieira
Da Redação
É
possível contar um pouco da história do mundo com pequenos
pedaços de papel que medem apenas alguns centímetros.
Além disso, eles podem ser ricamente coloridos ou em preto e
branco, valer de alguns centavos a mais de R$ 20 mil e podem despertar
a paixão em pessoas dos oito aos 80 anos. São os selos
postais, que ganham nova força em Mato Grosso graças à
reativação do Clube Filatélico e Numismático
de Cuiabá. O grupo, que de meia dúzia de pessoas num primeiro
momento se multiplicou para 19 na primeira reunião, tende a crescer
cada vez mais.
Sim, porque à medida que os colecionadores, muitos deles solitários
ou que estão parados, certamente se sentirão estimulados
a participar, analisa o empresário Maurício Melo Meneses,
dono de uma coleção de cerca de 30 mil selos. Ele lembra
que há um sem número de pessoas que interromperam as atividades
e que são potenciais futuros membros. Ele mesmo, que começou
a colecionar aos 14 anos de idade, já deu um tempo. É
natural, explica. Os colecionadores vão ficando mais velhos,
as responsabilidades aumentando e o tempo para o colecionismo fica escasso,
principalmente quando se passa da juventude para a idade adulta.
O grupo que está se formando novamente, por exemplo, conta com
membros que estão estabilizados profissionalmente. São
casados, têm filhos e agora dedicam uma parte de seus dias para
a filatelia. São empresários, médicos, professores
e figuras conhecidas da sociedade, enumera. Entre elas Mauricio destaca
nomes como Enzo Ricci, Névio Lotufo, o presidente do clube Rubens
Ferreira (um português naturalizado brasileiro) e Ricardo Carracedo,
dono de uma das maiores coleções de Mato Grosso. "Tem
gente desde 24 anos até 80 anos", garante. A participação,
ressalta, ficou bem acima das expectativas.
E por que é importante colecionar selos? Mauricio salienta que
é mais do que apenas juntar pequenos pedaços de papel
coloridos. Os selos têm uma importância histórica
que vai além do uso comercial. Na Europa, lembra ele, dez por
cento da população é filatelista. Algumas de suas
principais instituições educacionais têm disciplinas
específicas sobre o assunto. "Porque ela (a filatelia) engloba
cultura, geografia, artes, tudo. Lá tem um mercado fabuloso,
fiquei abismado", conta.
Que outro material, além dos livros de história, reuniu
ao longo dos séculos alguns dos mais importantes fatos ocorridos
no mundo? Que outro material retratou a fauna, a flora, a geografia,
as manifestações folclóricas e costumes durante
tanto tempo? Mauricio mostra, entusiasmado, algumas coleções
com motivos de Cuiabá e Mato Grosso, como Marechal Rondon. "É
um mato-grossense que tem quilos de selos", frisa. Há inclusive
os comemorativos que relembram momentos importantes, como o quarto centenário
do Descobrimento, a Revolução 1930, o quarto Centenário
da fundação de São Vicente (a primeira cidade do
Brasil), o Centenário do Olho de Boi (1943). Os que lembram Getúlio
Vargas, a inauguração de Brasília (conjunto especial),
o primeiro vôo comercial do Zeppelin.
Alguns deles chegam a valer verdadeiras fortunas, como os chamados "Inclinados",
que vieram logo depois dos "Olhos de Boi". O "Olho de
Boi" foi o primeiro selo brasileiro, lançado em 1843. O
país, por sinal, foi o segundo no mundo a ter selos, perdendo
apenas para a Inglaterra, de onde surgiu o pioneiro Penny Black, com
a efígie da rainha Elizabeth. Voltando aos "Inclinados",
os mais raros são os de 180, 600 e 300 reis. Para se ter uma
idéia, o de 180 reis sem carimbo custa R$ 16,9 mil (com carimbo,
R$ 6 mil); o de 300 reis custa R$ 21 mil sem carimbo (R$ 6,8 mil com
carimbo) e o de 600 reis custa R$ 19 mil sem carimbo (R$ 7,8 mil com
carimbo).
Planos - O Clube Filatélico e Numismático de Cuiabá
não pretende ficar só nos selos e moedas. Quer agregar
outros colecionadores, como o já bem conhecido Antonio Mano,
que possui os mais vários tipos de coleção. Ele
foi até convidado a mostrar um de seus muitos conjuntos nas próximas
reuniões do grupo.
Mauricio informa que o clube cedeu três coleções
para os Correios, para que fossem apresentadas em escolas e vai deixar
selos à disposição para distribuir nas palestras.
"Vamos sortear selos para as crianças. É uma forma
de incentivá-los. Nossa intenção é trabalhar
a criança", reitera. Ele revela ainda que o grupo pretende
fazer exposições no ano que vem, num shopping e na Assembléia
Legislativa de Mato Grosso, uma em cada semestre.
O clube planeja se reunir uma vez por mês para discutir a filatelia
e outros tipos de colecionismo e conhecer o material de seus membros.
A próxima reunião está marcada para o dia 17 de
outubro. Mauricio, por exemplo, apresentará uma exposição
com selos da época do Império. "Além disso,
vamos ter uma palestra sobre como montar uma coleção",
adianta.
Tecnologia - Quem pensa que as novas tecnologias e formas de
comunicação acabariam rapidamente com os selos está
enganado. Mauricio ressalta que, ao invés de sumir com o aparecimento
de ferramentas como o e-mail, os selos foram beneficiados pela rede
mundial de computadores. Agora é possível se comunicar
com gente do mundo inteiro, rapidamente, e obter cada vez mais selos.
O clube mesmo já tem uma comunidade no Orkut, aberta nestes dias.
Independente disso, o colecionador opina que os Correios poderiam colocar
a filatelia como um setor mais importante dentro da empresa. "Tem
que haver o fortalecimento", diz.
Educação - O engenheiro Geraldo de Andrade Ribeiro
Jr, presidente da Federação das Entidades Filatélicas
do Estado de São Paulo (Fefiesp), é um desses apaixonados
por selos e não se furta de destacar os benefícios da
atividade. Primeiramente, ele destaca como necessário esclarecer
alguns tabus, ainda difundidos no Brasil, que atribuem conotação
pejorativa ao colecionismo, seja ele de qualquer natureza. "Ele
é uma atividade salutar e recomendada, bem como pode ser praticada
por qualquer idade, não sendo uma mera atividade recreativa infantil
ou um passatempo para a terceira idade", frisa em um de seus artigos.
Segundo Geraldo, para se ter uma idéia da importância do
colecionismo, diversos países introduziram uma das formas de
colecionismo, a filatelia, em seus currículos escolares, considerando-se
a sua importância didática, histórica e cultural.
A filatelia, particularmente a Filatelia Temática, promove e
supera metas pedagógicas, ao se basear numa idéia central,
diretriz, que se desenvolve através dos selos postais. Praticamente
em todas as matérias a Filatelia pode ser um importante auxiliar
pedagógico, em particular pode-se citar a História, a
Geografia e as Artes, elenca.
"A adoção de um plano para uma coleção,
de uma estruturação da mesma, implica em raciocinar, criar,
imaginar, pesquisar, estudar e observar regras, além de relacionar-se
com terceiros. Este conjunto de tarefas configura um trabalho natural
de observação, análise e síntese desenvolvendo
aptidões e aumentado a capacidade de aquisição
de novos conhecimentos com a conseqüente elaboração
e expressão dos mesmos", explica.
Serviço - Quem quiser entrar em contato com o clube cuiabano
pode ligar para Mauricio no telefone 3023-8998 ou mandar mensagens pelo
e-mail mmmeneses@terra.com.br.
